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Nunca lhe li um livro. Não sei se irei ler. Muitos dos meus amigos dizem que é muito bom. O consenso generalizado assusta-me um pouco e deixa-me desconfiado. Talvez seja defeito meu. Mas vivo bem com ele. E, é claro, estou a falar de Philip Roth.

Quinta da Alorna



Alvarinho

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O blogger diz-me que existem, aqui, 63 entradas com a palavra chuva. Agora passarão a ser 64. Não sei se a chuva é uma constante naquilo que escrevo. Talvez o seja tanto como absurdo, morte, Deus, tédio, vida, amor. 

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De certeza que hoje já alguém disse "este ano não temos Verão".

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No pátio há alunos. Tudo normal. Os pátios, nas escolas, são para ter alunos. Aquilo que não é normal nos outros pátios de outras escolas, e que aqui é prática comum, são os gritos, os urros, os palavrões gritados à boca cheia. E há ainda as "brincadeiras": pontapés, chapadões, empurrões. Aqui não há jogar à bola, ou à apanhada. Aqui, o mais próximo que há do jogo da apanhada é "'tá calado ou apanhas na boca".

Lí por aí



Ontem morreu Júlio Pomar. Uma grande perda para a cultura portuguesa, alguém disse sem se rir. Hoje morreu Philip Roth. Quase de certeza, algures na América, alguém dirá que foi uma grande perda para a cultura norte-americana. Leio algures que João Gilberto passa mal, foi despejado, vive na miséria. Quando morrer, aposto, alguém do Brasil fará chegar-nos a notícia: grande perda para a cultura brasileira. Tudo ao contrário, tudo ao contrário. A cultura nada perde quando um dos seus cultores perece. Os artistas é que se perdem para a cultura. E a política vampiriza essa perda, como o caçador que, iludido com a captura de uma presa, se julga menos mortal do que é na realidade.


Uma imagem para o dia



Pedro Galvão


É bom deixar claro, antes de mais, que ser a favor da eutanásia voluntária não implica a menor oposição aos cuidados paliativos. A vontade de quem prefira receber esses cuidados em vez de recorrer à eutanásia deverá ser escrupulosamente respeitada. Julgo, aliás, que quem tenha essa preferência deverá poder contar com as condições médicas necessárias para realizá-la. Todavia, os cuidados paliativos de qualidade nem sempre estão disponíveis. Nem sempre têm a eficácia desejável. E, o que é ainda mais importante, na melhor das hipóteses permitem somente controlar a dor. Com grande frequência, no entanto, a escolha de quem opta pela eutanásia não se baseia (ou não se baseia apenas) na aversão à dor. A perspectiva de ficar intoleravelmente incapacitado, sem qualquer possibilidade realista de recuperação, é o que leva muitas pessoas a preferir deixar de viver. Por todas estas razões, é falso que os cuidados paliativos tornem desnecessária a legalização da eutanásia.


em Ética com Razões, Lisboa: Fundação Francisco Manuel dos Santos, 2015, pp. 54-55.

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A questão da perfeição nunca me atormentou. Sempre a considerei sobrevalorizada. Todos aqueles que vi e vejo a tentar alcançar a perfeição são seres infelizes. Hoje, ao ler alguns dos blogues que acompanho, leio que «Uma vida perfeita é a camuflagem ideal para uma existência à beira do abismo.». E não poderia estar mais de acordo.

António José Fernandes


Para a vida perfeita


Não exponhas os teus sonhos à lama da rotina
Não cortes nos teus pulsos a veia de acrobata
Não durmas imprestável na beira da voragem
Não pises o vestígio do riso original
Não temas o silêncio da única viagem
Não fujas da extensão dos golpes encobertos
Não feches a revolta na casa dos segredos
Não canses as surpresas na pressa da alcançar
Não quebres a pureza dos beijos impossíveis
Não finjas as palavras que as lágrimas sustentam


em Ainda não é tarde, Lisboa: Edição do Autor, 1955, p. 47.

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Ontem à noite o trompete de Hubbard afastou o gato da sala. Não é a primeira vez que ele se afasta devido à música que ouço, mas é a primeira vez que isso acontece quando Hubbard está a tocar. E ainda não ouviu Spring, de Tony Williams, onde os saxofones de Shorter e Rivers partem a louça toda. Mas, um destes dias, lá terá de ser.

Um poema de Tatiana Faia



Circunstancial


as pontes da manhã
afundam-se neste copo de papel cheio de café
ainda que tu esperes notícias
ou dês por ti ocupando de novo
o lugar onde têm dormido os teus homens
e a garganta seca espere por água
como os olhos esperam pelo despertar
tardio num dia de semana
tão cedo e já sentada à secretária
no teu local trabalho
sendo inimaginável o teu ofício

enche-se de gin um copo ao fim do dia
e os objectos não se compõem
com a facilidade com que o último dos curadores
organiza objectos mínimos nos expositores
são delicados os seus gestos
e os teus pensamentos têm a violência
de um fundo de lâminas
arranham como certas cordas
aquelas que equilibram o som das canções
onde algumas vozes roucas de repente
nos pubs onde se juntam os profissionais
de sexta-feira à tarde

e claro o teu coração afoga-se
na brancura do papel no colarinho da camisa
na promessa de algumas palavras
escrevinhadas a negro rápidas como os vultos
que diante da janela se movem
junho fecha as asas rápido como um pássaro
atordoado pela notícia de mais um inverno precoce
o seu equilíbrio numa só pata
enquanto à tua volta
eles desapertam gravatas
mastigam em silêncio os seus hambúrgueres

o tempo só pára de existir à sexta-feira à tarde

ele cujos modos são tão
anódinos

que nunca diria uma palavra que comprometesse
isto é que ferisse
mede agora a distância entre os polegares e o pescoço

ao desapertar o nó da manhã em redor do pescoço
tu queres livrar-te dele e do dia
queres um lugar onde os gaúchos não voltem
para falar das suas facas
e inglaterra é um poema que ainda não escreveste

tu ias dizer-me em algum ponto
que era imaculado o amor dele
como estações de comboios
ladeadas de verde com previsão de lagos
ao redor
ou a fome estampada nos olhos
no instante antes de comparecermos
antes de começarmos
com fome laboral
a devorar os nossos jantares

o sacrifício quotidiano
é capaz de ser
o adensar de uma distância antes breve

ou capturar a precedência urgente
assumida por certas expressões
como por exemplo:

como me têm divertido
estes homens e os seus leões


em Pombos Lerdos, s/l: Medula, 2018, pp. 21-24.

Pombos Lerdos



Pombos Lerdos
Ana Bessa Carvalho | F. S. Hill | Henrique Manuel Bento Fialho
João Alexandre Lopes | 
Jorge Aguiar Oliveira | José Ricardo Nunes
m. parissy | 
manuel a. domingos | Maria João Lopes Fernandes
Rui Almeida | 
Rute Mota | Tatiana Faia.
Medula
26 pp.

8 €

Tiragem única de 100 exemplares

Pedidos: medulalivros@gmail.com

José Alberto Oliveira


A faca sem lâmina
(versão para trem de cozinha e trombone)


A estética, por exemplo, das armas
de fogo; um manifesto a proclamar
a higiene da guerra — será, portanto, banal,
acumular pó e catar lêndeas.

Conselhos práticos: desdenhar
prescrições, ignorar avisos,
evitar conselhos, apostar
que a vida nos fala ao ouvido,

para não ter que dar um tiro
nos cornos. O sublime? — a melodia
dos martelos pneumáticos, o cinzeiro
atulhado de beatas, um copo vazio.


em De Passagem, Lisboa: Assírio & Alvim, 2018, p. 78.

Discos (282)




Rat Now
(instrumental)

Mal Waldron



O que resta, afinal? Chegas a casa e trazes o estouro do dia. Cada osso do teu corpo acusa a canga do trabalho. A liberdade, a esta hora, soa-te a eufemismo. O gato olha para ti. Há um leve miar. Passas a mão pelo seu dorso. Permanece no mesmo lugar onde o deixaste de manhã, como se o tempo não tivesse passado. E talvez o tempo não tenha passado, pois é todos os dias a mesma coisa.

Um poema de Carlos Ferreira Gomes


Nos primeiros tempos
interrogamos vidros,
a sua primorosa organização.
Longa e feroz permanência
contra o coração como limite.
Tão ignorada é a voz, os sítios
da face da sua infância.


em Alguns passos por Ilybe, Porto: Gota de Água | Imprensa Nacional - Casa da Moeda, 1984, p. 19

Lí por aí


Agustina diz que não crê que o trabalha precise de amor.  «O amor é uma forma de medo, não sei se me entendeis.» Entendo, mas não concordo. O amor é uma forma de coragem. O trabalho, também.

Estados Filosóficos (98)


Procurar que o silêncio seja método. 

Ensino Recorrente


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Dentro de um carro está um cão. Do lado de fora está uma mão. A mão atiça o cão que está dentro do carro. A mão bate no vidro do carro onde está o cão. A mão ri enquanto o cão ladra e rosna. À volta do carro estão crianças que olham e riem do cão que está dentro do carro e ladra e rosna enquanto a mão bate no vidro do carro onde está o cão. A mão continua a rir. O cão ladra. Rosna. As crianças.

Discos (281)




Suyafhu Skin... Snapping the Hollow Reed
(instrumental)

David Torn


para o Ricardo Álvaro

A esta hora do dia pouco mais há a fazer. Resta o corpo sobre o sofá, a luz a entrar pela janela. Os livros, esses, estão desarrumados nas estantes e um breve vento faz agitar as árvores. Começo a aprender as vantagens do isolamento voluntário, quando aqui me fecho e deixo o mundo no seu lugar: lá fora. Será que posso falar em misantropia? Longe disso, tendo em conta que gosto da companhia de certos amigos e de amigos certos, que procuro menos vezes do que aquilo que eles merecem. Pouco mais há a fazer. Resta o corpo sobre o sofá, a luz a entrar pela janela. Talvez um pouco de poesia. Mas vamos deixá-la, por hoje, em paz.

Shots - Manuel de Freitas



Manuel de Freitas
Shots
Paralelo W
2018

Estados Filosóficos (97)



O reaccionário de hoje foi o revolucionário de ontem. E o revolucionário de hoje será o reaccionário de amanhã. Todavia, isso não significa que a História se repita.

Estados Filosóficos (96)



Ouves: "acontece sempre aos melhores". E procuras entender como é que isso pode ser consolo para o teu fracasso.

Estados Filosóficos (95)



A dignidade de todo e qualquer ser deriva da sua capacidade de tolerar o outro enquanto semelhante. Caso tal facto não se concretize, a dignidade passa a ser bestialidade. Isto é: todo e qualquer ser transforma-se em ser humano.